sexta-feira, 20 de março de 2015

CORRESPONDÊNCIAS

De: Alef de 2015
Para: Alef de 2006
Caro-Alef-do-passado, como você já leu acima, eu sou o Alef do futuro. Ou seja: você daí a nove anos. Gostaria de pedir encarecidamente pra que você levasse os seus estudos a sério e parasse de reprovar. Sim, eu sei que você vai me inventar a desculpa de que a professora é chata e não gosta de você. Essa desculpa não cola comigo, afinal, sou você. Eu inventei essa desculpa! Não estou pedindo pra você parar com as zoeiras, nem com a piada do não-e-nem-eu, muita gente ainda vai cair nela. Só quero que você não estrague o seu futuro por causa das reprovações constantes. O seu futuro pode ser maravilhoso se você parar de soltar bombas no corredor da escola. Ainda falando nisso, quero te deixar um alerta que pode mudar todo o rumo da sua vida: sabe aquela colega de sala que sempre pede o seu apontador emprestado e você acha ela a mulher mais bonita do mundo mesmo ainda não conhecendo a Chloë Grace Moretz? pois é, essa menina vai rasgar o seu coração em pedacinhos e dá-los pros cachorros da rua comerem. Agora mudando de assunto. Sua avó, mãe do seu pai, que mora em João Pessoa, vai morrer em 2014. Pois é. Mas dias antes da morte dela você vai passar dois meses lá. Ela é uma pessoa maravilhosa. Vai adorar conhecê-la. Você ainda vai escrever muitas coisas sobre ela. Ah, esqueci de te contar: você é metido a escritor! 
PS: sobre a garota que pede apontador: apaixone-se cegamente por ela. Vai te render bons poemas.


De: Alef de 2021
Para: Alef de 2015
Caro-Alef-do-passado, aqui fala o Alef do futuro. Hoje é um dia muito importante pra você. Cheguei agora da sua formatura. Sim, isso mesmo. Logo você que vivia dizendo que nunca entraria na faculdade. Pois é. A partir de hoje, você é um psicólogo! Parabéns por nunca desistir desse sonho, cara. E obrigado pelo esforço danado que fez pra passar no vestibular. Mas o que me motivou a escrever esta carta, não foi apenas a formatura. Mês passado sua esposa –sim, você casou aos 24 - te deu a extraordinária notícia de que está grávida! Sim, cara! Isso mesmo... vai ser pai! Você não imagina o tamanho da sua alegria. Vai ser uma menina; o que você mais temia, mas no fundo queria que fosse. Vou zelar o seu desejo do passado e nomeá-la Sofia. Pai, Alef. Você é psicólogo e pai! Que orgulho!
PS: caso esteja curioso pra saber quem vai ser sua esposa: lembra da menina do apontador? 
PS2: preserve as suas amizades. Sem elas, você não seria feliz.
PS3: você já escreveu e lançou mais livros do que sonhou escrever.


De: Alef de 2038
Para: Alef de 2024

Querido eu do passado. Escrevo para vós e trago boas notícias. Sua filha Sofia passou no vestibular pra Medicina! Quem diria hem? Ela está realizando o sonho que você deixou de lado por conta do trabalho. Ela é uma menina linda. Pele branca feito a neve, cabelos loiros e – o mais esperado – seus olhos verdes. Tanta beleza assim só poderia atrair um tanto de marmanjo que vive no pé dela. Mas fique tranqüilo, você a ensinará bem a lidar com esses casos. Afinal, você é um dos melhores psicólogos do país. Queria te dizer também que sua esposa continua belíssima e é uma extraodinária companheira. Um de seus melhores amigos faleceu recentemente. Câncer. Você não está se sentindo bem faz meses, mas no fundo, sente-se feliz por ter conhecido um cara maravilhoso como aquele. Não direi o nome dele. Será melhor assim. Aproveite cada momento com cada um de seus amigos.
PS: não despreze aquela caminhada que você adora fazer. Acredite ou não, você está engordando.
PS2: você conseguiu comprar aquela casa de praia que tanto sonhou.


De: Alef de 2054
Para: Alef de 2037
Grande Alef! Como vão as coisas? Outra vez lhe escrevo numa data importante pra você. Hoje, menino, você está completando 60 anos. Seus irmãos estão todos aqui na sua casa. Infelizmente a alguns anos seus pais morreram. Embora você sempre pensasse que eles seriam eternos. Mas essa é a vida. Pessoas morrem para nascerem outras. E advinha só quem nasceu a poucos anos? Seu neto Alessandro, filho da Sofia. É bonito igual você. Puxou ao avô todinho! Passa o dia na sua casa correndo e bagunçando tudo. Sua filha Sofia casou-se com um rapaz direito e de boa índole. Médico assim como ela. Os dois se amam muito. Lembra quando você vivia dizendo sobre aqueles velhos que não fazem nada além de jogar dominó com os amigos e viajar?! Pagou com a língua! Você será um daqueles velhos. De uma coisa pode ter certeza: você carregou seus amigos até aqui. Parabéns por isso. Agora preciso parar de escrever, parece que Alessandro escondeu as chaves do carro. Ê netinho danado.
PS: sua esposa continua formosa, só mudou a idade.


De: Miguel em 2086
Para: Alef de 2073
Oi, o senhor não conhece eu, mas mim chamo Miguel. Sou filho do Alessandro, seu neto. Quando nasci, senhor já não existia mais. Disseram que está no céu. Espero que é verdade porque o céu é bonito e azul. Eu tem apenas seis anos. Mas já sei ler escrever. Gosto dos livros que o senhor escreveu. Principalmente do livro Bob Marujo. Todos aqui de casa diz que o senhor era o máximo. Queria muito ter conhecido. Pedi pro papai dar pra mim o violão que o senhor deixou. Mas ele disse que eu deveria escrever uma carta pedindo. Bisavô, posso fica com o seu violão?


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domingo, 15 de março de 2015

Hoje Toda & Qualquer Poesia traz um convidado especial, o autor Roque de Ávila Jr, com um texto super original:

A Dieta da Dra. Ronalda
Por Roque de Ávila Jr.

- Não há como dar errado, Dona Otávia. Seguindo esta dieta, seu filho vai emagrecer consideravelmente e sem ingerir qualquer medicamento. 
- Muito agradecida Doutora Ronalda. Mas a senhora me desculpe, eu não estou acostumada com letra de médico. Pode me explicar melhor em que consiste exatamente essa dieta?
A nutricionista sorriu com amabilidade.
- Claro, Dona Otávia, preste atenção: teu filho precisa de proteínas. Carne é muito rica em proteínas. Então sugiro que dê a ele todos os dias uma pequena porção de carne, cerca de 112g já basta.
- Ele não é fã de carne...
- Faça assim então: mande moer a carne, tempere e prense como se fosse um bifinho. Com pouco óleo, faça a carne na chapa. Ele vai adorar, porque já estará temperada! Pode servir com um pouco de alface picadinha, para ficar colorido. É saudável e é muito gostoso. 
A mãe fez novamente aquela expressão de que o filho continuaria a não gostar. Então, antes que a mãe argumentasse um novo impedimento do garoto às suas recomendações, a médica continuou a orientar:
- Acrescente também queijo. É rico em cálcio e previne diversas patologias ósseas.
- Ele não gosta muito de queijo...
- Ora, coloque então um molhinho especial e a senhora vai ver como ele come. Ainda mais se acrescentar cebolas picadinhas. Cebola é algo extremamente saudável, contêm antioxidantes e é muito boa para o sistema imunológico!
- Ih, Doutora Ronalda, então piorou! Ele detesta cebola!
A médica já estava achando o garoto enjoadinho demais. Todavia, tentou ser tolerante:
- Misture um pouquinho de picles. É super baixo em calorias e dá um gostinho que disfarça a cebola. Aliás, faça também o seguinte: ponha tudo isso num pãozinho e ele vai adorar.
- Mas tem que ser pão? Ele não suporta pão!
- Veja, - disse a doutora, já impaciente – muita gente se esquece que o pão, em quantidades recomendadas, é um alimento rico em fibras e vitaminas. É bom comer um pouco. Existem alguns bem legais... experimente o que tem gergelim, que é algo rico em minerais e é muito gostoso.
Doutora Ronalda fechou decididamente sua caneta e retirou os óculos:
- Então estamos combinadas?
- Ó, doutora, muito obrigada. Mas só tenho uma dúvida: a cada seis meses meu filho me pede para comer sanduiche no shopping. Há algum problema nisso, doutora?
A médica então diz a Dona Otávia, mirando-a com um sério olhar de censura:
- É óbvio que há problema! A senhora é louca de dar esse tipo de alimento ao seu próprio filho?!
A médica então deu as costas e deixou a sala resmungando sozinha: 
- Quanta ignorância, meu Deus! Quanta ignorância!


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Roque de Ávila Jr é professor de artes, artista plástico e escritor, autor do livro Peles (Chiado, 2014).



Acompanhe o autor pelo facebook 


ou pelo seu blog
Roque de Ávila Jr


Você pode adquirir o livro Peles pelo site da 
Livraria Cultura 

terça-feira, 10 de março de 2015

quinta-feira, 5 de março de 2015

Uma Vida Literária: Esconderijos do Tempo

Como quem me conhece sabe que adoro ler, meu melhor amigo, Thiago, me deu de presente um livro de Quintana, o “Esconderijos do Tempo”.
Fui tomada por uma nostalgia, uma sensação de que a poesia tinha entrado no meu quarto e se escondido em algum canto, pra nunca mais sair. Cada página mostra a expressão do amado poeta que conquistou o Brasil com seus versos maravilhosos. Quintana soube falar o que sentia e fazer com que nos identificássemos de maneira singular.
Indico essa obra pra quem quer sentir a beleza da poesia, ler um livro de qualidade e relembrar a obra de um poeta tão simples e expressivo da nossa literatura. Doce, gostoso, agradável e capaz de nos fazer viajar!
Deixo aqui um dos poemas do livro, só pra mostrar o quanto é bom:



Se o Poeta Falar Num Gato

Se o poeta falar num gato, numa flor,
num vento que anda por descampados e desvios
e nunca chegou à cidade...
se falar numa esquina mal e mal iluminada...
numa sacada... num jogo de dominó...
se falar naqueles obedientes soldadinhos de chumbo que morriam de verdade...
se falar na mão decepada no meio de uma escada de caracol...
Se não falar em nada
e disser simplesmente tralalá... Que importa?
Todos os poemas são de amor!



Um forte abraço ao Thiago Moraes e a você que me lê!
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domingo, 1 de março de 2015

Flor-de-Novembro* 
Parte I - Maria João

      Pequenina ainda achava-se a pessoa mais feia do mundo. Olhava-se no espelho quebrado da velha penteadeira da mãe – penteadeira que parecia ter atravessado séculos – e o que via a assustava tanto quanto uma aparição. Achava o nariz desproporcionalmente grande, o rosto torto, os olhos muito arregalados. Não se via como as outras meninas, nem como as da rua, menos como as da escola, tão lindas em suas tranças e em seus vestidos bordados. Seu cabelo de tão embaraçado, era sem jeito. Nada lhe ornava. Nada lhe ficava bem. Sua roupa, sempre uma calça comprida, quando não, um calção. A mãe fazia faxinas e ficava fora boa parte do dia; logo sobrava pouco ou nenhum tempo para cuidar da filha. Cansada de vê-la desarrumada, com os cabelos despenteados parecendo “ninho de rato”, a mãe resolveu cortá-los bem curtos, àquele modo a que chamamos de “joãozinho”. Ela tinha oito ou nove anos. Junto às mechas que caíam misturavam-se as lágrimas dos olhos premidos da pequena, enquanto suas mãozinhas inquietas percorriam pernas e joelhos e os dentes tensos mordiam os lábios.
– Que é isso, menina? Tá morreno, é? É só cabelo; cresce de novo. Agora vê se aprende a cuidá.
Viu-se no espelho. Agora, além de feia não tinha mais cabelo. A mãe lhe mandou à padaria naquela hora da tarde em que saía o pão quentinho. Os clientes eram atendidos um a um; um a um saíam satisfeitos, e Juliana por ali, perdida entre pernas e prateleiras, sem dizer uma palavra.
– Ô, muleque! O que cê vai querer? – clamava de lá o balconista.
Juliana já se impacientava de tanto esperar, mas não era capaz de reclamar. Um entrava, logo saía com seu pedido; chegava outro, outros tantos adultos mais importantes, ninguém via uma menininha tímida, incapaz de se manifestar.
– Ô, muleque! Ô, muleque! Você que tá aí parado!
Juliana olhou para o cara que gritava tanto e só então percebeu que o balconista estava falando com ela.
– É você mesmo, muleque. Que cê vai querer?
Moleque!? Moleque!? Juliana ficou com a face rubra de vergonha e a mente negra dos piores xingamentos que a sua inocente cabeça conhecia. O que aquele desgraçado estava pensando? Teve vontade de quebrar o balcão de vidro e dizer para aquele idiota que ela era menina, “me – ni – na” .  Quis mandá-lo para o inferno, ou pior, “para aquele lugar”. Mas ao invés disso, falou baixinho:
– Me dá cinco pãozinho.
Nasceu na escola, no dia seguinte, e escapou para a rua, para o balanço, para a praça, para a vida, o apelido que a acompanhou por toda a adolescência: Maria João.
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* Baseado em conto homônimo publicado na antologia do 13º Prêmio Escriba de Contos (2013), de Piracicaba - SP

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

A Profundidade da Infância
Para Luiz Henrique




Quando te conheci nos teus profundos olhos negros pude sentir uma energia incomum. Vives no meio do caos, onde qualquer outro ser humano, talvez não sobrevivesse.
Vocês tão pequenos, são frutos não sabemos bem do que, se de amor ou descuido. Fazem parte da minha vida por ofício do destino. Dessa vida? Ou de outra vida? Uma paixão que não precisa ser explicada, por essa gente pequena, que muito me engrandece.
Tua mente, por alguns, foi considerada de um louco, já eu desde a primeira troca de olhares, te considerei um gênio. Com toda a nobreza que a existência de um tem. 
Teus desenhos, de alguma maneira, sempre manifestam alguém além dos gritos e brigas. Mostraram-me como que a mente humana realmente é. Tuas gargalhadas incansáveis demostram a profundidade do teu ser.
Mas de todos os motivos, que fazem de mim uma admiradora convicta de tua pessoa, o maior de todos, é a tua frase, já dita mais que uma vez: “tia, tu tem olhos diferentes.” Dessa forma entendo-te por inteiro.
A imagem que hoje tomou conta da minha mente, e ali ficará: são teus pequenos passos lentos, ao lado de tua mãe, e mais um bocado de gente que não sei quem é, pois o único que me importava, era tu.
Teus passos, em meio a toda a terra, e só terra...
E saber como tu mesmo disseste: “Eu sou da cor chocolate.”, te perguntei então: “E eu que cor sou? Posso ser chocolate também?”, “Pode, mas tu é chocolate branco.”
Que assim sejamos doces como chocolates...

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Paixão Lusitana

Paixão Lusitana traz no colo poemas nascidos atualmente, em Portugal.

A poesia portuguesa anda de mão dada com o Fado e tem como mote inesgotável o amor: amor contido; amor sofrido; amor traído, amor não correspondido. Sofrer por amor, morrer por amor, cantar a dor.
Palavras de paixão, destino e saudade, gemem as guitarras portuguesas. Essa saudade de um país com os olhos postos no mar... Mas por detrás dessa tristeza que se canta há uma força latina que nos impele a enganar o destino, lutar pelo que queremos e abraçar a felicidade.
Apaixonámo-nos vezes sem conta e de cada vez até à exaustão, amamos, magoamos, perdoamos, vingamos o partir do coração. E nas palavras dos poetas de hoje cresce a vontade de viver desta lusitana paixão, nome da canção que abre esta coluna.



Fado
Chorar a tristeza bem
Fado
adormecer com a dor
Fado
só quando a saudade vem
Arrancar do meu passado
Um grande amor

Mas não condeno essa paixão
Essa mágoa das palavras
Que a guitarra vai gemendo também
Eu não, eu não pedirei perdão
Quando gozar o pecado
E voltar a dar de mim

Porque eu quero ser feliz
E a desdita não se diz
Não quero o que o fado quer dizer

Fado
Soluçar recordações
Fado
Reviver uma tal dor
Fado
Só quando a saudade vem
Arrancar do meu passado
um grande amor

Mas não condeno essa paixão
Essa mágoa nas palavras
Que a guitarra vai gemendo também
Eu não, eu não pedirei perdão
Quando gozar o pecado
E voltar a dar de mim
Eu sei desse lado que há em nós
Cheio de alma lusitana
Como a lenda da Severa

Porque eu quero ser feliz
E a desdita não se diz
O fado
Não me faz arrepender

Lusitana Paixão – Dulce Pontes
Música: José da Ponte; Jorge Quintela
Letra: José da Ponte; Fred Micaelo



quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Notícias Literárias


O talentoso André Kondo é notícia no Estante de Letrinhas, do Estadão, com o seu livro "O Pequeno Samurai". Você pode conferir a matéria no blog:


domingo, 15 de fevereiro de 2015

Natália Brandão

Ela é jovem, ela é bonita, ela é divertida, ela tem uma legião de fãs. Autora de “O Moço e o Ócio” (Scortecci-2013) Natália Brandão é a entrevistada deste mês de Toda & Qualquer Poesia. Confira agora!

T&QP – Natália, conte um pouco de você pra gente.
Natália BrandãoMeu nome é Natália Brandão, tenho 23 anos, moro em Paraíba do Sul, Rio de Janeiro, por enquanto. Moro aqui porque é a minha cidade natal e perto da faculdade, é uma questão de rotina e comodismo, mas já existem pensamentos quanto a morar em outros lugares. Eu faço bacharelado em Gestão Ambiental, na UFRRJ, nada relacionado à Literatura, mas eu aprendi a me apaixonar pelo curso e pelo meu futuro profissional.

T&QP – Natália Brandão é religiosa?
Natália BrandãoEu fui criada na igreja católica, não vou mais, mas fez parte da minha criação. Eu não acredito muito nos dogmas impostos pelas igrejas e isso acaba afetando bastante a minha relação com os meus credos. Tem dias que acordo disposta a acreditar em coisas infinitas ao meu redor, em outros me faço um milhão de perguntas científicas pra tentar me encaixar no lugar em que estou hoje.

T&QP – Mas você acredita em Deus?
Natália Brandão Acho que acreditar, no final das contas, todo mundo acredita, né? Mas eu acredito em uma força suprema, que alguma coisa nos mova, não uma pessoa ou algo do tipo, é um assunto bem difícil de expressar.
 
T&QP – Falando de sua carreira, quando você começou e o que te levou a escrever?
Natália BrandãoEu comecei a escrever com 17 pra 18 anos. No começo eram textos motivacionais, algumas exposições de sentimentos cotidianos em relação ao mundo, até os 19, quando descobri que eu talvez tivesse vocação pra escrever pra alguém. O cotidiano me leva muito à escrita; eu sempre li bastante e então quando senti que eu podia também transmitir as minhas coisas foi extraordinário.

T&QP – Como foi a experiência de lançar um livro seu?
Natália BrandãoFoi incrível, às vezes eu olho pra ele e fico me perguntando se é real mesmo. Foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida.

T&QP – E você pretende lançar outros?
Natália BrandãoQuantos der, espero que muitos ainda.

T&QP – Quem é que te inspira, hein?
Natália BrandãoEssa é a pergunta que vale um milhão de dólares! (risos)... As pessoas perguntam bastante sobre isso, sobre quem é que me faz ter essa vontade louca de escrever.  A verdade é que alguns caras simplesmente me inspiram, óbvio que de maneiras diferentes, alguns conseguem mudar e interferir totalmente o meu modo de escrita e o jeito como falo sobre amor, outros estão só atravessando a faixa de pedestre e trazem algo consigo, que eu mal sei identificar e aí escrevo.

T&QP – Muita gente te elogia... Como você se sente ao ver esse carinho do público?
Natália BrandãoEssa é a parte mais fantástica, é incrível ver as pessoas elogiando e dizendo que é como se eu vivesse a vida delas. Dá vontade de escrever o triplo e eu me preocupo muito quando algum leitor tá passando o mesmo que eu em algum texto que é meio triste, meio que dá vontade de abraçar e, que sorte que palavras às vezes viram abraços!

T&QP – Você esperava essa repercussão? Publicar, virar escritora, ser reconhecida por um público?
Natália BrandãoNão, eu nunca esperei tudo o que aconteceu, nunca tinha me visto como escritora e até hoje não me vejo, em alguns dias. Quando eu lancei o livro, eu tinha certeza de que não venderia nem um, mas nas primeiras semanas eu levei pilhas e pilhas de livros aos correios, foi inspirador.  Teve muita gente que me ajudou e me incentivou no meio do caminho e que ainda faz parte da realidade. O Túlio, que fez a capa do livro e o site, que sempre foi meu melhor amigo no meio disso tudo, a Erika Lina e a Agnes que cuidam e divulgam a página sempre com o maior carinho. Eu não seria metade das coisas que eu sou sem eles, definitivamente.

T&QP – Qual é o seu trabalho preferido, aquele pelo qual você tem um carinho especial?
Natália BrandãoMeu trabalho preferido é o do verso do livro, porque eu consigo enxergar toda a cena na minha cabeça, como se fosse um filme.
“Vesti sua camisa dos Strokes essa manhã e ri das reclamações sobre eu usar mais as suas camisas do que as minhas. Tem uma paz indecente entre a gente, gritando o nosso desleixo com tanto sentimento. Da cozinha dá pra ouvir o disco do The Doors abrigando a vitrola, algo sobre ‘Quem você ama agora?’ E quem vai dizer que é mesmo amor o que a gente é daqui de dentro? Ninguém vai arriscar ser o primeiro a dizer que sente, a dizer que não mente, quando fala em ficar. Ninguém vai querer as obrigações de ser o primeiro a chegar e o último a partir, mas vai ter sempre alguém querendo voltar. A transcendência ao orgulho quando a saudade diz a quem pertence nosso coração. É essa a vida que eu escolhi pra ter, pra brincar de ser você e pra gente não ter que ir embora, mesmo que o drama seja exagero e a loucura, transparência.”

T&QP – O que você acha da poesia contemporânea?
Natália BrandãoAcho incrível o modo como os artistas conseguiram solidificar os pensamentos, a poesia hoje é sentida e vivida em cada palavra.

T&QP – Como você acredita será o futuro da literatura?
Natália BrandãoTem muita coisa boa surgindo agora, principalmente na minha geração, acho uma pena que a literatura seja tão desvalorizada no Brasil, espero que a força de vontade dos artistas seja maior do que essa desvalorização.

T&QP – Defina Vinicius de Moraes.
Natália BrandãoO Vinicius devia ser beatificado por transmitir amor, é surreal a quantidade de sentimento que cada palavra que ele escreveu transmite.

T&QP – Defina a obra de Clarice Lispector em uma palavra.
Natália BrandãoExuberante, sempre exuberante.

T&QP – Em que projetos você está trabalhando atualmente?
Natália BrandãoEu tenho alguns projetos na cabeça, mas pro papel mesmo, só um livro novo, que está terminando de ser escrito.


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O Moço E O Ócio, o livro de Natália Brandão, você pode comprar pelo site : www.omocoeoocio.com


Se você quiser acompanhar a autora nas redes sociais veja abaixo como:
Facebook:   Natália Brandão
                   O Moço e o Ócio     

Instagram: Natdoocio

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Poeta Disfarçado


Numa certa tarde vivendo deliciosamente o meu marasmo, fui surpreendido por um gato que aparecera em minha casa. Minha mãe, grande amadora de qualquer tipo de bicho, se danou a alimentá-lo. Minha mãe sempre alimenta os bichos que pairam sobre a nossa calçada. Ela alimenta também as pessoas, mas isso está fora de cogitação no momento, pois quero falar sobre o gato. Ele era um gato esplêndido! De raça que ainda desconheço, mas de belos pelos cinza-claros.
Os olhos do gato são azuis. Mas não um azul qualquer. É aquele azul que te faz pensar que por trás das retinas, há alma. E uma alma superior até mesmo à nossa. Todos os dias o bendito gato passava entre as grades do nosso portão e miava para que minha mãe o alimentasse. Até que por achar conveniente, decidiu ficar conosco. A independência do gato me fascinava! Veja bem, a escolha de ficar foi dele, não nossa. Era como se fôssemos merecedores de tal hóspede. Isso me deixava feliz e privilegiado. 
Chegou a hora de nomeá-lo e como considerado o mais criativo da casa, fui incumbido disto. Primeiro passei a chamá-lo de Gato. Mas minha irmã após boas risadas e me chamar de Senhor Óbvio, me obrigou a trocar o nome do bichinho. Para honrar a função de mais criativo da casa, escolhi batizá-lo como Poeta. A juíza da casa, minha irmã, dissera que esse nome até era legalzinho pra ele. E assim ficou. Poeta. E havia alma em seus olhos. Ele sem dúvida era um poeta. E não era um poeta só por haver alma em seus olhos. Incontáveis vezes o flagrei com um sorriso irônico como quem acaba de completar um verso com uma palavra que se encaixara perfeitamente na ultima frase. Ele fazia poesia; e das boas. Aquelas que não precisam de palavras. Aquelas poesias mudas. Ele era, certamente, um poeta disfarçado.
Porém o surgimento repentino do bicho na nossa casa nos fizera pensar em quem seria o verdadeiro dono. Ele era um gato bem cuidado, não havia dúvidas quanto a isso. Seus pelos eram bem lisos e seu comportamento falava por si: reservado, aparentemente comprometido com sei-lá-o-quê. Era invejável como ele parecia ter mais responsabilidades do que eu. E talvez tivesse mesmo.
Ele era um gato fugido. Descobrimos que os verdadeiros donos do gato eram os vizinhos da frente. A patroa da minha vizinha (que conforme citado pela vizinha era uma madame muito rica) havia dado o gato a ela. Só que o gato fugira e eles não queriam se dar o trabalho de procurá-lo. Ao devolvermos o gato, ela agradeceu. Porém dias depois o gato voltou pra nossa casa. Ao devolver novamente, ela dissera que: já que o gato insistira tanto em ficar conosco, podíamos tê-lo. Não gostei do termo. "Não somos nós que temos o Poeta; é ele que nos tem’’ - a corrigi mentalmente. Portanto, o gato era, definitivamente nosso. Aliás, nós éramos definitivamente dele.

Ter um gato em casa como um bom e velho amigo, me fazia lembrar do Mickey, que era um gato que eu tive na minha infância. O Mickey era tão irônico quanto o nome. Ele era um gato com nome de um rato. Talvez ele sumira por puro descuido de querer procurar o rato que era ele mesmo. Eu amava o Mickey, tinha certeza disso; mas ele de uma noite pra outra, sumiu. Ou se achou. O procurei por toda a quadra mas nunca o encontrei. Sofri a perda de um dos meus melhores amigos. Mas ali estava, espichado no sofá, o Poeta. O meu novo amigo que, de tão sereno, me incitava a também ficar. E era um jogo de quem ficaria mais sério. Um jogo de quem rir perde. Eu nunca ganhava. Ele nascera para aquele jogo, só pode!
Da mesma forma que o Mickey sumiu, eu receava que o Poeta também o fizesse. Eu tinha medo de perdê-lo. Sempre tive medo das perdas. E eu chegava a chorar pelas perdas que ainda nem haviam acontecido, que talvez nunca acontecessem; mesmo assim eu chorava. E eu chorei pelo Poeta certa tarde. Ele havia sumido.
E foi por toda a semana que eu fiquei triste. Eu pensava no Poeta constantemente. Queria esquecê-lo, queria que ele deixasse de existir. Mas tinha medo que isso acontecesse, que fosse verdade. Tinha medo que ele realmente deixasse de existir. Então parei de pensar assim. Eu o esperava de braços abertos.

Era pouco mais de seis e meia da noite e eu estava saindo para o trabalho quando eu vi, desnorteado na esquina, o Poeta. Perdido. Sem rumo. Sem esperanças. Desci do carro e após me ver, se deu numa seqüência de miados que só podia ser saudade. Eu me dei numa seqüência de gargalhadas. Talvez nós dois estivéssemos gargalhando. O levei pra casa e percebi alguns ferimentos. Um acima do olho esquerdo. Outro na articulação da pata dianteira direita. Parei de gargalhar. O entreguei pra minha mãe e pedi que ela o medicasse e cuidasse dos ferimentos. Ela faria sem eu pedir. Ela ama os bichos.
Com a volta do Poeta tudo ficou mais suportável. O marasmo de domingo não deixou de ser marasmo, mas com ele chega a ser mais que um dia de tédio. E quando estou deitado no sofá assistindo algum filme, sem que eu o chame ele se deita ao meu lado. Cheio de pose. Como um renomado crítico de cinema pronto a dar sua opinião sobre a atuação de Tom Hanks. E dava. Meneava a cabeça como quem aprovara a atuação.
Não sei quantas vidas o Poeta já perdera. Tampouco sei quantas viveu. O que sei, é que, se eu pudesse, o faria viver mais do que apenas sete.
 
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