quinta-feira, 31 de janeiro de 2013
sábado, 16 de junho de 2012
Se
eu pudesse viajar no infinito
e
esquecer que todos os homens são corruptos
se
eu pudesse controlar o tempo
e
desligar de seus efeitos a eterna criança
se
eu pudesse me perder em teu sorriso
e
adormecer protegido por teus cabelos
se
eu pudesse abolir a guerra
e
aliviar a dor dos inocentes
se
eu pudesse penetrar nas pessoas
e
purificar a essência das almas
se
eu pudesse me fazer entender
e
ser ouvido por muita gente
seria
o mais completo de todos os homens.
10/09/96
23:21
sábado, 9 de junho de 2012
O que incluir no poema para lhe dar
a forma desejada e sonhada com carinho
tão zeloso que beira a obsessão?
O que incluir no poema para que ele
se torne digno de ser lido e relido
copiado à mão por idealizadores
românticos
entregue em forma de bilhete a
apaixonados
por outros apaixonados que lhe roubem a
autoria
digno de ser estudado e dissecado em
análises
rítmicas, sintáticas, morfológicas,
métricas, estruturais
por gramáticos e literários que lhe
torçam o nariz
(não importa porque já seria
realização suficiente
tomarem de seu tempo para notar que
dissemos algo)
e quem sabe até figurar em coletânea
de novos talentos?
O que incluir no poema, nós que por
certo
nascemos no século errado, conformados
já
ou não com a decepção de não ter
nada a dizer
que já não tenha sido melhor
expresso, composto
pelos que sabiam “eternizar a vida
breve em arte”*?
O que incluir no poema, agora que a
poesia morreu
e a palavra não possui a mesma força
de outrora
e surgiram televisão e salas de bate
papo on line
num tempo sem brilho além dos das
vidraças
de escritórios intermináveis na
Francisco Glicério
um tempo em que a graça das coisas
esvaiu-se
restando apenas o cinza antipoético do
concreto
e as pessoas não mais fazem viagens ao
país dos sonhos
e não têm tempo nem interesse em ler
poesias e romances
porque já não há mais nenhuma
ingenuidade no mundo?
O que incluir no poema como ferramenta
estética
nós, singelos operários sem carteira
da palavra
proletários de poesia rústica, mal
acabada
como havemos contornar o suplício de
transcrever
em bela forma a amargura n’alma
ressecada
como havemos disfarçar a ardente
metalurgia
de produzir rimas menos que pobres,
paupérrimas
para serem consumidas apenas por nós
mesmos?
O que incluir no poema, que
ingredientes usar
a fim de torná-lo atraente também a
outros olhos
os olores de flores da primavera febril
surgindo
pores-do-sol em horizontes sempre
longínquos
a meia luz do abajur cortando a
escuridão
quase palpável da noite mais negra,
gotejando luz
como uma fonte reticente de idéias e
desejos
escadas, pontes de madeira em cidades
mineiras
anjos e fadas ou marcianos d’outra
galáxia
casas amarelas com peixinhos
azuis-celeste
paixões ardentes adolescentes
salpicadas de perfeição
a inquietação juvenil arrogante,
julgando-se capaz
de movimentos que transformarão o
mundo
musas inspiradoras de formas perfeitas
e almas límpidas
o ódio visceral, a morte abrupta,
causticante
maravilhas mil de um Brasil antagônico
o que, afinal, incluir no poema?
Como fabricar o poema,
produzir algo novo
vibrante, cheio de vida,
detalhes e sentido
e não apenas plagiar e
plagiar anjos e bandeiras
como ser mais que uma
banda de rock pós anos oitenta
e na experiência da
tentativa não ficar com cara
de grupo de pagode da
estação passada?
Fechou-se a porta. A velha fábrica
faliu.
Hoje apenas a industrializada produção
em massa
de enlatados insípidos a serem
consumidos em fast foods
nada que lembre a sutil delicadeza dos
feitos à mão
de um séc’lo em que se espremendo
forte a alma
retirava-se néctar a ser degustado
prazerosamente.
24/04/05
*A Música da Terra – Carlos
Drummond de Andrade
quarta-feira, 23 de maio de 2012
Na natureza
substancial
ou na nova
ordem mundial
na crise de
meia idade
ou na batina
do frade
no amor
platônico
ou no
laboratório atômico
no jeito de
olhar
ou na poluição
do ar
no vírus letal
ou na
realidade virtual
no uísque
escocês
ou no kamikaze
japonês
na incerteza
da questão
ou na ausência
de solução
no cientista
espacial
ou no pirata
digital
no Van Gogh
restaurado
ou no
Beethoven regravado
no Shakespeare
incompreendido
ou no Drummond
esquecido
na crise de
personalidade
ou na estátua
da liberdade
na frase feita
ou no
terrorismo da seita
no órgão
competente
ou no
solilóquio demente
na volúpia da
canção
ou na busca de
perdão
na manchete de
jornal
ou na forma
existencial
e na raiz
peculiar
de tudo o que
nos cerca
há a sinopse
de caráter
e das mais
intrínsecas
ambições
humanas.
26/06/95
Tenho uma vaga
lembrança do mar
Onde as
grandes ondas salgadas
Vindas de
longe na praia vão quebrar
Trazendo
mortas as vítimas afogadas
E vivas as que
continuam a se arriscar
Pela coisa que
mais amam
As águas do
mar que as chamam.
Lá estive
ainda era criança.
O estrondo da
onda, majestoso
Dá à
grandiosidade ar de desconfiança
E também medo do
Netuno glorioso
Que pode fazer
tempestade da bonança.
Esta é a
crença que o marinheiro inventou
Temer a mitos e não ao Deus que o mar criou.
Grande mar,
que escondem suas profundidades?
Teus mistérios
excitam do homem a imaginação
Que até mesmo
crer existir cidades
Como
Atlândida, submersas em tua imensidão
E com elas
tesouros das mais lindas raridades:
Vivendo entre
monstros marinhos gigantes
Sereias que
encantam marinheiros viajantes.
Grande mar,
defenderás teu sábio Criador?
Mostrarás que
estão todos enganados?
Pois quem te
fez para ser o inspirador
De poetas que
em rimas choram apaixonados
Aquele que te
criou em incomparável esplendor
É o mesmo que
louvo com estes versos:
Jeová Deus, o
soberano do universo.
94? 95?
segunda-feira, 21 de maio de 2012
Hoje é o meu dia.
Agora é o meu momento.
Nada há de me impedir
que eu complete minha saga.
Tenho uma faca entre os meus dentes
e o desejo latente de sair vencedor
corre por todas as minhas veias.
Meus olhos atentos, miram
uma única direção, sem vagueios
sem distrações, sem sonolência.
Minha mente está fixa, lúcida
guiando-me qual bússola capaz
enquanto em meu peito
outrora gélido e inóspito
meu coração arde em brasas intensas.
Respondem meus músculos
pistões descomunais que me conduzem
sem jamais almejar o descanso
até onde estará guardada minha recompensa.
Mas todo o maquinário de guerreiro
só se movimenta por uma força maior
indestrutível, um “poder além do normal”*
que vem de cima e é presente
não consecução.
*2 Coríntios 4:7
*2 Coríntios 4:7
21-05-12 07:27
domingo, 20 de maio de 2012
O mundo que se apresenta
não é mais o meu.
Pertenço a lugar nenhum
amigos, não os possuo.
Não me enquadro mais em nada
canto nenhum me cabe.
Sou tudo e sou nada
meu corpo não mais contém meu espírito
a angústia agora exala
por todos os meus poros.
Meu habitat é diferente
estou forçado por estas jaulas
a estar aqui.
O aqui é onde? e muito esconde.
Aqui as bocas não falam verdades
as faces são ocultas por máscaras
e os corações se apressam
em sugar meu sangue
até que dele nada reste
além das manchas que respingaram sobre a roupa.
Meus olhos perderam o foco
e foco é o que nos mantém lúcidos
de modo que não mais consigo
traçar nenhuma rota segura.
Minha alma está vazia
completamente derramada nas folhas
nas telas, entre as teclas, no jardim.
O vírus letal que de mim tomou posse
deletou toda a alegria
corrompeu minhas virtudes
hackeou minha forças.
A vida permanece, contínua, atroz.
A vida ainda passa adiante dos meus olhos
e eu a vejo catatônico de minha janela
sem poder segurá-la
sem poder contê-la ou vivê-la
e o único desejo que me resta
é o de poder acordar.
20-05-12, 19:03
Amanhã serei
um gigante
e conquistarei
o mundo.
Serei gente
grande
e no espanto
de quem me encontrar
todos me
temerão.
Serei um
imperador
e nas raias
sinuosas da lucidez
farei do mundo
todo
um grande e
alegre hospício.
Serei o dono
das coisas
e no enorme
tabuleiro de xadrez
em que
controlarei o jogo das vidas
debater-me-ei
em luta comigo mesmo
e
superar-me-ei no árduo traçar
de estratégias
e sairei vencedor
e as peças,
subservientes
aos meus
caprichos insanos
cairão diante
de mim.
Amanhã serei
homem
com asas de
anjo
e voarei para
bem longe,
onde nem o
espaço me pode alcançar,
farei do
incógnito subconsciente
minha casa, e
do tempo
meu brinquedo
particular.
Serei livre,
livre de mim
e terei
deixado para trás
a melancolia
dos sentimentos
e das paixões
humanas.
Serei tudo o
que as pessoas mais querem
e o que elas
mais odeiam
e têm medo de
ser.
Amanhã serei
mercúrio cromo
nas almas;
serei o descobridor
das inocentes
e o libertador
delas.
03 e/ou
04/06/96terça-feira, 15 de maio de 2012
Todos
dormem na madrugada amiga
com quem
divido meus pensamentos
minhas
angústias e tristezas
alegrias
poucas, constantes inquietações.
Todos
dormem no escuro
e o
escuro fica ainda mais escuro
quase
palpável e me persegue
como um
inimigo oculto
errando
entre folhas e janelas.
O
silêncio permanece. Um silêncio
quase
ensurdecedor, um silêncio
totalmente
ameaçador, quebrado
raramente
pelas rodas de um carro.
Os
olhos almejam ardentemente o descanso
mas a
mente em constante ebulição
provoca
os sentidos com enigmas
enquanto
o sono brinca de pega-pega
e de
pique-esconde comigo.
À minha
frente o papel
em
minha mão a caneta
a alma
ansiosa por sair
e se
revelar toda, completa.
Porém
nada acontece. Nada.
Ficou
difícil falar, difícil pensar
elaborar
ideias, frases, rimas.
Resultam
apenas rabiscos
frases
desconexas, ideias incompletas
armadilhas e disfarces do subconsciente
armadilhas e disfarces do subconsciente
como se
houvesse necessário vestir-me
para
não aparecer nu aos olhos de todos.
A noite
se arrasta escuridão adentro
porquanto
tornou-se ainda mais melancólico
o
suplício de transcrever amarguras
e eu já
me darei por vencedor
se como
fruto de um esforço sobre-humano
no
final eu tiver conseguido reter
junto a
mim a minha fugitiva sanidade.
dez/12