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sexta-feira, 8 de maio de 2015
domingo, 3 de maio de 2015
Flor-de-Novembro
Parte III - Trabalho
Quando Juliana largou a escola para trabalhar a mãe não reclamou muito. Ela nem sequer sabia como lidar com a filha. Ademais, uma ajuda financeira seria muito útil. O primeiro trabalho foi como auxiliar de uma costureira. Não deu muito certo. Juliana até levava jeito com os tecidos, mas não com as pessoas. E a costureira, mulher muito vaidosa, pôs-se a querer mudar as roupas andróginas de Juliana. Era como se ela ouvisse atrás de si a voz de Carolina, decretando: Maria João.
Depois arrumou trabalho como entregadora de jornal. Assim como os meninos, fazia as entregas ainda no começo da manhã, o que lhe dava tempo para alguma outra ocupação. Havia um lava - rápido num posto próximo, de modo que conseguiu uma colocação para o período vespertino. Era muito esforçada. Porém, passado pouco tempo, o lava - rápido fechou e ela não conseguiu outra vaga. Com bastante tempo livre, começou a permanecer no escritório do jornal. Após as entregas, quando todos os meninos iam embora, Juliana ficava ajudando aqui e ali, organizando pilhas de papel, varrendo o chão, enfim, fazendo qualquer coisa necessária, mesmo sem ganhar nada para isso. Preferia ficar ali e sentir-se útil a ficar sozinha em casa, remoendo suas feiura e esquisitice. O dono do jornal, que era também o editor-chefe, o fotógrafo, o repórter e assim por diante, acabou por ficar sensibilizado com o esforço da guria, além de que, é claro, precisava de toda a ajuda possível. Assim, contratou-a como “office-girl”. Então, após entregar a sua quota de jornais, continuava a fazer um pouco de tudo, mas agora recebia um salário para isso. Ainda que pouco, era útil.
Pela primeira vez, parecia que a vida tomava um rumo bom. O patrão até cogitava lhe pagar um curso de especialização. Desde que voltasse a estudar. Ela não gostou nada da ideia; ficou a cozinhar o chefe em banho-maria e continuou seu trabalho. Absorta nele, Juliana quase apagara de seu coração a dor excruciante de não ter mais a esperança de ser mãe. Quase. Tudo ia razoavelmente bem, até que...
Assim, sem mais nem menos, a secretária começou a reclamar de Juliana. Dizia que ela não parecia uma moça e que sua imagem não condizia com a do jornal. Talvez se ela mudasse suas roupas...
Juliana não suportou muito. Olhava para a secretária e via Carolina apontando-lhe o dedo: – Maria João. Logo perdeu o interesse pelo trabalho e um dia não apareceu mais, nem mesmo para receber seu último salário. O chefe chegou a ir à sua casa pedir que ela voltasse. Qual nada! Juliana era também de gênio forte. Irredutível, recusou-se terminantemente. O assunto do vestuário era tema por demais delicado para ela. Soube-se mais tarde que a secretária saía com o chefe. De algum modo, sentiu-se ameaçada pela garota de cabelos curtos que se vestia como homem.
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quinta-feira, 30 de abril de 2015
UM OUTRO OLHAR
Se eu pudesse viver minha vida novamente...
As 128 páginas de Se eu pudesse viver minha vida novamente... devem estar entre as melhores já produzidas no país. Não somente por ela ter sido escrita por um gênio chamado Rubem Alves, mas pelo efeito que esta obra é capaz de produzir em quem a lê.
Há neste livro, lançado em 2006, um pouco do muito que Rubem foi em sua vastíssima obra: poeta, filósofo, cronista, teólogo e contador de estórias, entre outras facetas. Mas, não pense encontrar todos estes gêneros separados por capítulos ou algo parecido. Aí que está a grande delícia deste livro: em cada folha escrita podemos encontrar uma mistura destes como se fossem uma coisa só. Algo que Rubem Alves fazia tão bem e que era a extensão da sua personalidade cativante.
Apesar deste título e de ter sido lançado por ele quando tinha 73 anos, não quer dizer que Se eu pudesse viver minha vida novamente... deva agradar somente pessoas desta faixa etária. Até porque os temas (perdas, ganhos, felicidade, tristeza, solidão, saudade) recorrentes nestes textos selecionados, são comuns a pessoas de qualquer idade.
O livro abre com um poema intitulado Instantes de autoria discutível. É atribuído a Jorge Luis Borges e também a Nadine Stair. E eu fecho minha colaboração com um dos trechos deste livro:
“Plantei árvores, tive filhos, escrevi livros, tenho muitos amigos e, sobretudo, gosto de brincar. Que mais posso desejar? Se eu pudesse viver minha vida novamente, eu a viveria como a vivi porque estou feliz onde estou.”
Ósculos e amplexos, moçada poética!
Brasilino Júnnior, era fã confesso de Rubem Alves. No link abaixo está o texto por ele escrito no dia da morte deste grande escritor brasileiro.
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domingo, 26 de abril de 2015
Mas pra que tanto “blá blá blá”?
As bocas estão cheias, de coisas a serem ditas, das quais nem precisamos escutar. Os sonhos são de cada um, assim como os traumas. Na vida, não temos como saber, quem vai nos fazer sorrir e quem vai traumatizar a nossa alma de uma forma incomum.
Ter medo de saber quem somos, é só um passo para o fim. Porque a pessoa que tem coragem de buscar ajuda, mudar e tentar ser alguém melhor são totalmente diferentes daquelas que acham que não precisam mudar.
É fácil colocar o dedo na ferida alheia, dói menos. O difícil mesmo é enxergar no espelho o que precisa ser mudado em si mesmo. Não sou a top no assunto, mas tenho muito conteúdo para falar de tal. Porque passei por tantas fases em minha vida, das quais até hoje o reflexo existe.
Vivemos em bando, porque a maioria de nós acredita que é assim que precisamos viver. Só que no fim das contas, com o passar dos dias, começamos a perceber que não é assim que funciona. E podemos assim determinar quem continua na nossa vida, e quem sai de vez.
Só aquele que é capaz de entender os problemas que possui, será capaz de então, fazer escolhas, do contrário, será só mais um sendo levado pela maré da vida, essa que de vez em quando, nos pesa tanto nas costas.
Escolha quem são as pessoas que vão acrescentar algo em sua caminhada, e quem é apenas passagem. Optar por com quem quer conviver, não é errado. Porque temos essa liberdade. O que é torturante é porque “acreditam” que é preciso o convívio com determinadas pessoas, tu continuar convivendo.
Aprendo a cada dia, e em certos momentos me pergunto, se esse “blá blá blá” de alguns vai parar. Porque a cada palavra que escuto, percebo que não me acrescenta nada. É preciso ser egoísta no sentido de estar perto de quem nos faz bem, e longe de quem faz o contrário disso. Não somos obrigados a nada nessa vida, e muito menos, a conviver com determinadas pessoas.
Por isso, sem conselhos amigos, apenas contando uma experiência, liberte-se!
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quinta-feira, 23 de abril de 2015
Paixão Lusitana:
Sensualidade Na Poesia
A sensualidade na
poesia portuguesa ainda é tratada com alguma timidez. Distinta da poesia
erótica, mais ousada e manifestamente acalentada, oposta à poesia popular
brejeira, a qual passa de boca em boca entre os fervorosos adeptos, os poemas
de sensualidade subtil quase que se deixam ficar na sombra. Como algumas
mulheres tão bem sabem (homens também) no gesto sensual trata-se de levantar a
ponta do véu, insinuar, provocar a beleza, criar a imagem de uma esteira de
pétalas brancas em vez de remeter o momento poético para sedas encarnadas. Elegante,
requintada, a poesia sensual é plenamente conseguida e digna do maior aplauso
quando as palavras criam tal imagem. Contudo, dos lábios que sorriem
timidamente quando a lêem, não saem comentários tão facilmente como com outro
género de poesia. Recato lusitano? Talvez ...
Tenho o maior
prazer em trazer Beijo a beijo, de
Rosa Lobato Faria, Vou tentar descobrir a suavidade das sedas no céu da boca,
de Élia Morais de Araújo e Ternura de
David Mourão Ferreira.
Beijo a Beijo
E de novo a armadilha dos abraços.
E de novo o enredo das delícias.
O rouco da garganta, os pés
descalços
a pele alucinada de carícias.
As preces, os segredos, as risadas
no altar esplendoroso das ofertas.
De novo beijo a beijo as madrugadas
de novo seio a seio as descobertas.
Alcandorada
no teu corpo imenso
teço um colar de gritos e silêncios
a ecoar no som dos precipícios.
E tudo o que me dás eu te devolvo.
E fazemos de novo, sempre novo
o amor total dos deuses e dos
bichos.
Rosa Lobato Faria, in 'Dispersos'
Vou tentar descobrir
a suavidade das sedas no céu da boca.
Move-se
o mistério dessa voz irresistível
a trincadela deliciosa
curiosa
destemida!
o charme...
um sismo que arde
nos lábios
dois dedos
e uma tulipa rubra
quase negra
como o desejo
que se lê
louco
aromático
impaciente!
Élia Morais Araújo
Ternura
Desvio dos teus ombros o lençol,
que é feito de ternura amarrotada,
da frescura que vem depois do sol,
quando depois do sol não vem mais
nada...
Olho a roupa no chão: que
tempestade!
Há restos de ternura pelo meio,
como vultos perdidos na cidade
onde uma tempestade sobreveio...
Começas a vestir-te, lentamente,
e é ternura também que vou
vestindo,
para enfrentar lá fora aquela gente
que da nossa ternura anda
sorrindo...
Mas ninguém sonha a pressa com que
nós
a despimos assim que estamos sós!
David Mourão-Ferreira, in "Infinito Pessoal"
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domingo, 19 de abril de 2015
Adeus, Kelly

Morávamos juntos há dois anos e já planejávamos um filho. Os pais dela, donos de uma rede de supermercados em Brasília, cederam uma de suas casas para que não precisássemos pagar aluguel. Eles sempre deram tudo o que ela queria. Mas eu questionava o fato de eles nunca se importarem com o estado emocional dela. Davam a ela o mundo, mas nunca o seu tempo. E ela carecia de amor paterno. Por isso, quando nos conhecemos, ela tinha sérios problemas em expressar suas emoções comigo. E eu, tentava ao máximo fazê-la se sentir amada. Eu era namorado e pai ao mesmo tempo.
Peguei a BR 060 e acelerei o Chevrolet como nunca antes. No som, a banda The Fray soava nos meus tímpanos como se cada solo de guitarra fosse eterno e constante. Cantávamos em uníssono o vocalista e eu:
"How cold you be so heartless?''
''Oh... How cold you be so heartless?".
A cada acorde, uma lágrima escorria no meu rosto. E quanto mais lágrimas caíam, com mais força eu pisava o pé direito no acelerador. Eu já estava a 180km/h e já sentia o peso do carro no volante. Na cabeça, eu sentia o peso da saudade.
Já estava anoitecendo quando a luz no painel piscou, me informando que o tanque de combustível estava na reserva. Foi só então que percebi o quão idiota tinha sido: havia esquecido de abastecer o carro antes de sair de Brasília.
Como eu já havia pego aquela estrada incontáveis vezes, a conhecia muito bem. E em poucos quilômetros, cinco, talvez, havia um posto Ipiranga. Mas o curioso é que quando cheguei no local em que o posto deveria estar, não havia nada além de muito mato e escuridão. Eu tinha absoluta certeza de que ali havia um posto.
Então sem gasolina, o carro foi parando. A bomba de combustível soprando aos engasgos as poucas gotas que restavam no tanque. Assim como um lutador recebe um nocaute e apaga, o motor do carro apagou.
Olhei pros dois lados da pista e nenhum carro passou. Tudo o que se via era uma vasta mancha negra que cobria todo o meu campo de visão. Me impossibilitando de distinguir até a linha horizontal que separa a terra do firmamento. Abri uma cerveja e pensei um pouco. O celular! Claro, o celular! Por que não pensei nele antes? Disquei o número do John e uma mensagem com letras brancas e fundo escuro me fez entrar em desespero: NO SIGNAL.
Ali estava eu. Sem a Kelly, sem gasolina, sem sinal e sem o John.
Quando levei a cerveja à boca e levantei levemente a cabeça foi que meu olhar, meio que de soslaio, conseguiu perceber uma luz piscando no meio do nada. Desliguei o farol do carro, tranquei as portas, peguei mais uma cerveja e saí andando na direção da luz. Como não havia estrada, apenas mato, liguei o flash do celular e saí abrindo o matagal com os pés. Quanto mais perto eu chegava, maior ficava a minha percepção. Aos poucos fui percebendo traços comuns até me dar conta de que se tratava de um imenso telhado e algumas árvores. Ao me aproximar ainda mais ouvi de longe alguns latidos de um cachorro. Foi quando a luz que eu vi piscando se apagou e as luzes da casa se acenderam completamente. A porta se abriu e um senhor de macacão e botas saiu pra fora com uma barra de ferro nas mãos.
- Quem tá aí? – perguntou ele.
- Olá. Desculpe incomodá-lo. É que acabou a gasolina do meu carro e meu celular está sem sinal. Posso usar seu telefone?
- Sim. Claro que pode. Entre. Fica a vontade. O telefone está ao lado da janela.
- Obrigado.
Entrei, peguei o telefone, disquei o número do John e esperei. Esperei. Esperei e nada.
- Não está funcionando. – disse ele.
Ia perguntar o porquê de ele ter me deixado entrar, já que o telefone não funcionava. Mas preferi agradecer e ir embora.
- Se você quiser pode ficar conosco essa noite. Não vai encontrar gasolina uma hora dessas.
- Não, obrigado. Não quero incomodá-lo.
- Não seja idiota, rapaz. A noite é longa pra se passar dentro de um carro na beira da estrada.
- Mas é que não posso deixar meu carro abandonado lá. – disse a ele.
- Vamos lá buscá-lo. Eu vou pegar minha caminhonete, só um instante.
Então ele abriu um celeiro que ficava atrás da casa, e tirou uma Ford vermelha enferrujada. Sentei no banco do passageiro e saímos por uma estrada que eu não tinha reparado que existia. Ele amarrou o meu carro no dele e voltamos pra fazenda. Chegando lá ele guardou a caminhonete no celeiro e eu ouvi um barulho semelhante ao de um cadeado fechando a porta do celeiro. O meu carro ficou na frente da casa.
Ele entrou e me ofereceu algo pra comer. Rejeitei e perguntei apenas onde ficava o banheiro. Ele me indicou uma porta branca, próximo à cozinha. Mijei mais do que o comum e só então percebi que foi por conta da cerveja. Abri a torneira pra lavar as mãos, mas não saiu água. Saí do banheiro e ele me esperava bem na porta. Me conduziu até a mesa da cozinha.
- Como achou nossa casa?
- Como assim? – perguntei.
- Está tudo escuro lá fora. Como você achou a nossa casa?
- Havia uma luz piscando.
- Luz? Onde? – me perguntou com tom de voz cético.
- Na janela do quarto no primeiro andar.
- Mas não há ninguém no primeiro andar.
- Mas havia uma luz piscando.
- Lá era o quarto do Ramon, o meu único filho, mas ele faleceu há três anos. Desde então ninguém vai até aquele quarto.
- Você está brincando comigo. – disse a ele, sorrindo.
- Eu não brincaria com a morte do meu filho.
Depois de ouvi-lo dizer aquilo, um frio desceu pela minha espinha e eu tentei manter o controle. Fingi estar com sono e perguntei onde eu dormiria. Torci para que ele não me preparasse o quarto do filho morto. Por sorte, o quarto de hóspedes era embaixo.
Deitei-me na cama fria e tentei descansar a mente. Quando pensei na Kelly, meus olhos se fecharam e eu apaguei.
Acordei às 03:00 com um barulho surdo. Como sons de socos na parede e gritos abafados. Ouvi um sussurro e de pronto pulei da cama. Barulhos de correntes arrastando no chão fizeram minha mente dar pane. Corri até a janela e o meu carro não estava mais na frente da casa. Na mesma hora a porta do quarto se abriu e um rapaz vestido com um jaleco sujo de sangue entrou no quarto. Na mão esquerda ele segura várias correntes. Na direita, um facão de lâmina brilhante de envergada. No rosto, um sorriso irônico de quem acabara de encontrar a dracma perdida.
- Eu sou o Ramon. E estou morrendo de fome.
Antes que ele desse o primeiro passo pra frente, eu dei pra trás. Soquei a janela de vidro, e me meti a correr pro rumo do celeiro. Um cadeado enorme me impediu de pegar a caminhonete. Mesmo sabendo que não teria chances, corri sem cansar rumo à BR. O que me surpreende no ser humano, é a esperança; mesmo quando se tem certeza que já não há mais saída ou esperança. Eu corri. Corri sem cessar. Corri sem olhar pra trás. Mas quando olhei pra trás, algo assustadoramente me fez parar de correr. A fazenda não existia mais. E, onde ela deveria estar, havia um posto de gasolina bem iluminado com as faixas azul e amarela e o letreiro com os dizeres: "Ipiranga’’. Sorri um sorriso irônico de quem acabara de encontrar a dracma perdida.
Na minha frente, o meu carro estava capotado e rodeado de bombeiros e socorristas. E eu estava morto dentro dele.
Adeus, Kelly. Adeus, Kelly.
quinta-feira, 16 de abril de 2015
sábado, 11 de abril de 2015
Uma Vida Literária:
Do que adianta ter uma coluna e não falar da vida?
É cada uma que me aparece, que me acontece... Às vezes, eu olho pra esse mundo e penso “está tudo perdido, já era...”; outras vezes eu imagino que isso aqui ainda tem jeito.
Sabe, a vida é feita de surpresas, tanto boas quanto ruins. É teste de fé, é teste de resistência. É saber a hora de parar, é entender a hora de começar, é inventar e se reinventar.
O tempo vai passando e tudo o que precisamos é de mais tempo.
Mas, como diria Guimarães Rosa, “Tudo o que muda a vida vem quieto no escuro, sem preparos de avisar.” Quem sabe essas surpresas não vêm é pra mudar a nossa vida pra melhor? Espero que seja isso mesmo.
Boa semana!
segunda-feira, 6 de abril de 2015
Ela dispensa apresentações. Adriane Garcia acaba de lançar seu 2º livro apenas, mas já é um dos nomes mais celebrados da poesia contemporânea. Nesta entrevista ela mostra porque, além de dar uma aula sobre consciência poética. Confira:
T&QP – Adriane Garcia, fale-nos um pouco sobre você?
Adriane Garcia – Nasci em Belo Horizonte, tenho 41 anos, sou
funcionária pública federal e sou graduada em História pela UFMG e pós-graduada
em arte-educação pela UEMG.
T&QP – Como é ser mãe e poeta? Você
gostaria de ver uma filha se tornar poeta?
Adriane Garcia – Ser mãe e ser poeta são atividades que se
interpenetram. A maternidade dá uma profundidade ao olhar, pelo menos ao meu
deu. Eu passei a olhar as outras crianças de uma forma muito mais solidária
depois que fui mãe. E a poesia, ao menos a minha, se alimenta da solidariedade.
Se minhas filhas se tornam poetas, acho lindo isso porque estimulo nelas todas
as artes e creio que trabalhar a palavra com mais consciência e imaginação é
algo de boa semente no mundo. Mas deixo que elas sejam o que quiserem, desde
que não façam mal ao outro.
Adriane Garcia – Sou panteísta. Meu Deus é uno, cósmico,
total. Sou extremamente religiosa, apesar de não ter religião.
T&QP – Vamos falar de literatura? Como a poesia entrou em sua vida?
Adriane Garcia – Num livro de Cecília Meireles, quando
aprendi a ler. Ou Isto ou Aquilo. Encantei-me com a música que havia neles. As
palavras cantaram e eu já gostava de magia.
T&QP – Você escreve algo
além de poesia?
Adriane Garcia – Sim, tenho dois livros de contos, inéditos,
que um dia publicarei. Vou mexer mais neles. Tenho um infanto-juvenil de prosa,
um infantil em versos e quatro de dramaturgia infanto-juvenis.
T&QP – Quem te acompanha sabe de sua
admiração por João Cabral de Melo Neto. Como você explica a influência dele em
sua obra?

T&QP – Em
2013 o seu Fábulas Para Adulto Perder o
Sono venceu o Prêmio Paraná de Literatura. O que isso mudou para você? Na
sua visão, quão importantes são concursos como esse?
Adriane Garcia – Mudou quase tudo o que tem a ver com
visibilidade. O que estes concursos fazem, e no caso o Prêmio Paraná é de
completa lisura, é revelar o autor ao meio literário. E isso é muito
importante. Escritores que publicam seus trabalhos querem ser lidos e a
afirmação contrária é absolutamente absurda.
T&QP – Você acaba de publicar mais um
livro, O Nome do Mundo. Que Adriane
Garcia o leitor vai encontrar neste novo trabalho?
Adriane Garcia – Densa, séria, reflexiva e que convida a
pensar o mundo, não o meu, o dele através do que olho no meu.
T&QP – Você
é muito admirada por ser dona de um estilo peculiar de poesia. Você tem a real
dimensão da influência que você exerce sobre outros poetas?
Adriane Garcia – Não tenho esta dimensão. Minha poesia
procura comunicar, por isso é clara e objetiva. Ao mesmo tempo, tento não perder
elementos que fazem dela poesia, como gênero. Não quero negar a tradição, nem
ficar repetindo o que não cabe mais neste tempo. E também não quero inventar um
idioma que nasce apenas da minha vontade.
“Não serei o poeta de um mundo caduco./ Também não cantarei
o mundo futuro./Estou preso à vida e olho meus companheiros.”
Outro dia Carlos Felipe Moisés falou algo que considerei
genial: há grande diferença entre o novo e o estranho. Pois é, o novo me interessa, traz raízes,
nasce de algo. Eu nasci de algo. O estranho me é totalmente alienígena e não me
interessa como projeto.
T&QP – Como
você vê a poesia de hoje? É possível determinar uma corrente dominante na
poesia contemporânea?
Adriane Garcia – Não creio que haja correntes de domínio. E
aqui estou falando de poesia contemporânea apenas de nosso país, que é o que
está mais perto de mim e eu poderia falar alguma coisa, sem pretender a
verdade, mas uma reflexão. O que há, sem dúvida, são grupos e grupo dominante.
Mas aí não é uma questão apenas de poesia, mas uma questão de política, que
envolve, muitas vezes, tudo o que o alcance do poder envolve. A poesia
contemporânea é, no seu conjunto, e só poderia ser, o reflexo do mundo
contemporâneo: diverso, caótico, líquido, perdido, vulgar, vazio, consumista,
desesperado. E na resposta à imersão neste mundo, a poesia é construção,
destruição e, por vezes, resistência.
T&QP – Na
sua visão qual deve ser o papel do poeta na sociedade?
Adriane Garcia – Fazer sentir e ver. Chamar a pensar.
Oferecer beleza num mundo feio. Oferecer um mundo feio para o mundo feio se ver
feio. Encantar pela Língua.
T&QP – Defina Adriane Garcia.
Adriane Garcia – Alguém
que ama. Muito.
T&QP – Defina a obra de Adriane Garcia em
uma palavra.
Adriane Garcia – Comunicação.
T&QP – Que mensagem você gostaria de
deixar para a posteridade?
Adriane Garcia – Cuidem das crianças.
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Você pode acompanhar a autora na web pelo
Blog: Adriane Garcia ou Facebook : Adriane Garcia
O Nome do Mundo pode ser comprado através do site Armazém Cultura:
quarta-feira, 1 de abril de 2015
Flor-de-Novembro*
Parte II - Carolina
Era Maria João pra cá, Maria João pra lá. Muito embora odiasse que a chamassem assim – ela sempre repetia enfezada: “JULIANA” – nada fazia para melhorar sua imagem. É que com o tempo, Juliana passou a achar que até não era mau não ter tanto cabelo para se preocupar, para lavar, para pentear. Quando a mãe tentou deixar seu cabelo crescer novamente ela não o quis mais. Quando a mãe se recusou a cortar, ela mesma o fez. Continuava de calção, camiseta e pés descalços, correndo com os meninos atrás de uma bola ou de uma pipa pelas ruas e becos da vizinhança. Achava melhor companhia e preferia parecer com os moleques. Talvez, de se achar tão feia tentava-se disfarçar entre os meninos. Como o disfarce fora dando certo, a menina foi nutrindo a ideia de mantê-lo. E quando as coleguinhas de escola começaram a usar maquiagens e a namorar os meninos mais velhos, Juliana tomou sua decisão: esconder-se-ia para sempre dos olhos do mundo.
Embora ocultasse de todos qualquer traço de delicadeza e feminilidade, Juliana possuía desde sempre o desejo latente de ser mãe. A ideia da maternidade a encantava. Mas como ela poderia se tornar mãe um dia? Juliana achava ser impossível que algum homem sentisse atração por ela. Quando pequena, ao chegar em casa após os folguedos e as estrepolias com os meninos, agarrava as duas ou três velhas bonecas que possuía e punha-se a alimentá-las, banhá-las, vesti-las. Costurava-lhes roupas com os retalhos de pano de sua mãe. E as enfeitava. Brincos, anéis, colares e broches, maquiagens, esmaltes e batons. Para elas jurara que haveria de ser mãe e que, quando fosse, seria a melhor mãe do mundo e sua filha, a mais linda, a mais paparicada, a mais enfeitada dele.
Agora que crescia e seu corpo começava a despejar sobre ela uma torrente interminável de hormônios, Juliana achava-se ainda mais estranha, menos atraente. E suas colegas todas rodeadas de meninos. Especialmente Carolina. Juliana sempre estivera rodeada de meninos, mas não da mesma forma. Nenhum deles a olhava como olhavam para “Carol”. As coisas não estavam mais tão claras; não mais pareciam tão divertidas as conversas tolas sobre futebol e carros. Tudo mudara, a não ser o desejo de se tornar mãe. Mas, como? Que garoto iria se interessar por uma coisa desengonçada, esquisita como ela? Um aperto diferente invadiu seu coração, algo que ela nunca sentira antes. Era como a tristeza que sempre a acompanhara, porém mais intensa, mais dolorosa e retirava de tudo o brilho.
– Maria João! Maria João!
– JULIANA!
– Ui... Juliana... Você não quer ir lá em casa hoje?
– Pra que, Carolina?
– É que meu pai tá reformando a casa e ele vai precisar de um servente de pedreiro.
Os risos e chacotas há muito se tornaram insuportáveis. Já era hora de deixar Carolina e aquilo tudo para trás. Juliana largou a escola e arrumou um emprego.
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* Baseado em conto homônimo publicado na antologia do 13º Prêmio Escriba de Contos (2013), de Piracicaba - SP
Leia a primeira parte desta história aqui