quinta-feira, 16 de abril de 2015
sábado, 11 de abril de 2015
Uma Vida Literária:
Do que adianta ter uma coluna e não falar da vida?
É cada uma que me aparece, que me acontece... Às vezes, eu olho pra esse mundo e penso “está tudo perdido, já era...”; outras vezes eu imagino que isso aqui ainda tem jeito.
Sabe, a vida é feita de surpresas, tanto boas quanto ruins. É teste de fé, é teste de resistência. É saber a hora de parar, é entender a hora de começar, é inventar e se reinventar.
O tempo vai passando e tudo o que precisamos é de mais tempo.
Mas, como diria Guimarães Rosa, “Tudo o que muda a vida vem quieto no escuro, sem preparos de avisar.” Quem sabe essas surpresas não vêm é pra mudar a nossa vida pra melhor? Espero que seja isso mesmo.
Boa semana!
segunda-feira, 6 de abril de 2015
Ela dispensa apresentações. Adriane Garcia acaba de lançar seu 2º livro apenas, mas já é um dos nomes mais celebrados da poesia contemporânea. Nesta entrevista ela mostra porque, além de dar uma aula sobre consciência poética. Confira:
T&QP – Adriane Garcia, fale-nos um pouco sobre você?
Adriane Garcia – Nasci em Belo Horizonte, tenho 41 anos, sou
funcionária pública federal e sou graduada em História pela UFMG e pós-graduada
em arte-educação pela UEMG.
T&QP – Como é ser mãe e poeta? Você
gostaria de ver uma filha se tornar poeta?
Adriane Garcia – Ser mãe e ser poeta são atividades que se
interpenetram. A maternidade dá uma profundidade ao olhar, pelo menos ao meu
deu. Eu passei a olhar as outras crianças de uma forma muito mais solidária
depois que fui mãe. E a poesia, ao menos a minha, se alimenta da solidariedade.
Se minhas filhas se tornam poetas, acho lindo isso porque estimulo nelas todas
as artes e creio que trabalhar a palavra com mais consciência e imaginação é
algo de boa semente no mundo. Mas deixo que elas sejam o que quiserem, desde
que não façam mal ao outro.
Adriane Garcia – Sou panteísta. Meu Deus é uno, cósmico,
total. Sou extremamente religiosa, apesar de não ter religião.
T&QP – Vamos falar de literatura? Como a poesia entrou em sua vida?
Adriane Garcia – Num livro de Cecília Meireles, quando
aprendi a ler. Ou Isto ou Aquilo. Encantei-me com a música que havia neles. As
palavras cantaram e eu já gostava de magia.
T&QP – Você escreve algo
além de poesia?
Adriane Garcia – Sim, tenho dois livros de contos, inéditos,
que um dia publicarei. Vou mexer mais neles. Tenho um infanto-juvenil de prosa,
um infantil em versos e quatro de dramaturgia infanto-juvenis.
T&QP – Quem te acompanha sabe de sua
admiração por João Cabral de Melo Neto. Como você explica a influência dele em
sua obra?
Adriane Garcia – Não posso dizer que a influência dele em minha obra
seja notável, porque me considero mesmo uma aprendiz e que ainda não alcancei
um trabalho de tanta consciência com a palavra. Mas considero que sua
influência existe em cada poema que reescrevo, porque é quando reescrevo que
meço e domo. Não gosto de excessos de adjetivações, excesso de advérbios,
principalmente os de modo. Procuro uma poesia que faça sentir, mas que,
principalmente, faça o leitor visualizar. E esta força é do substantivo e do
verbo.
T&QP – Em
2013 o seu Fábulas Para Adulto Perder o
Sono venceu o Prêmio Paraná de Literatura. O que isso mudou para você? Na
sua visão, quão importantes são concursos como esse?
Adriane Garcia – Mudou quase tudo o que tem a ver com
visibilidade. O que estes concursos fazem, e no caso o Prêmio Paraná é de
completa lisura, é revelar o autor ao meio literário. E isso é muito
importante. Escritores que publicam seus trabalhos querem ser lidos e a
afirmação contrária é absolutamente absurda.
T&QP – Você acaba de publicar mais um
livro, O Nome do Mundo. Que Adriane
Garcia o leitor vai encontrar neste novo trabalho?
Adriane Garcia – Densa, séria, reflexiva e que convida a
pensar o mundo, não o meu, o dele através do que olho no meu.
T&QP – Você
é muito admirada por ser dona de um estilo peculiar de poesia. Você tem a real
dimensão da influência que você exerce sobre outros poetas?
Adriane Garcia – Não tenho esta dimensão. Minha poesia
procura comunicar, por isso é clara e objetiva. Ao mesmo tempo, tento não perder
elementos que fazem dela poesia, como gênero. Não quero negar a tradição, nem
ficar repetindo o que não cabe mais neste tempo. E também não quero inventar um
idioma que nasce apenas da minha vontade.
“Não serei o poeta de um mundo caduco./ Também não cantarei
o mundo futuro./Estou preso à vida e olho meus companheiros.”
Outro dia Carlos Felipe Moisés falou algo que considerei
genial: há grande diferença entre o novo e o estranho. Pois é, o novo me interessa, traz raízes,
nasce de algo. Eu nasci de algo. O estranho me é totalmente alienígena e não me
interessa como projeto.
T&QP – Como
você vê a poesia de hoje? É possível determinar uma corrente dominante na
poesia contemporânea?
Adriane Garcia – Não creio que haja correntes de domínio. E
aqui estou falando de poesia contemporânea apenas de nosso país, que é o que
está mais perto de mim e eu poderia falar alguma coisa, sem pretender a
verdade, mas uma reflexão. O que há, sem dúvida, são grupos e grupo dominante.
Mas aí não é uma questão apenas de poesia, mas uma questão de política, que
envolve, muitas vezes, tudo o que o alcance do poder envolve. A poesia
contemporânea é, no seu conjunto, e só poderia ser, o reflexo do mundo
contemporâneo: diverso, caótico, líquido, perdido, vulgar, vazio, consumista,
desesperado. E na resposta à imersão neste mundo, a poesia é construção,
destruição e, por vezes, resistência.
T&QP – Na
sua visão qual deve ser o papel do poeta na sociedade?
Adriane Garcia – Fazer sentir e ver. Chamar a pensar.
Oferecer beleza num mundo feio. Oferecer um mundo feio para o mundo feio se ver
feio. Encantar pela Língua.
T&QP – Defina Adriane Garcia.
Adriane Garcia – Alguém
que ama. Muito.
T&QP – Defina a obra de Adriane Garcia em
uma palavra.
Adriane Garcia – Comunicação.
T&QP – Que mensagem você gostaria de
deixar para a posteridade?
Adriane Garcia – Cuidem das crianças.
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Você pode acompanhar a autora na web pelo
Blog: Adriane Garcia ou Facebook : Adriane Garcia
O Nome do Mundo pode ser comprado através do site Armazém Cultura:
quarta-feira, 1 de abril de 2015
Flor-de-Novembro*
Parte II - Carolina
Era Maria João pra cá, Maria João pra lá. Muito embora odiasse que a chamassem assim – ela sempre repetia enfezada: “JULIANA” – nada fazia para melhorar sua imagem. É que com o tempo, Juliana passou a achar que até não era mau não ter tanto cabelo para se preocupar, para lavar, para pentear. Quando a mãe tentou deixar seu cabelo crescer novamente ela não o quis mais. Quando a mãe se recusou a cortar, ela mesma o fez. Continuava de calção, camiseta e pés descalços, correndo com os meninos atrás de uma bola ou de uma pipa pelas ruas e becos da vizinhança. Achava melhor companhia e preferia parecer com os moleques. Talvez, de se achar tão feia tentava-se disfarçar entre os meninos. Como o disfarce fora dando certo, a menina foi nutrindo a ideia de mantê-lo. E quando as coleguinhas de escola começaram a usar maquiagens e a namorar os meninos mais velhos, Juliana tomou sua decisão: esconder-se-ia para sempre dos olhos do mundo.
Embora ocultasse de todos qualquer traço de delicadeza e feminilidade, Juliana possuía desde sempre o desejo latente de ser mãe. A ideia da maternidade a encantava. Mas como ela poderia se tornar mãe um dia? Juliana achava ser impossível que algum homem sentisse atração por ela. Quando pequena, ao chegar em casa após os folguedos e as estrepolias com os meninos, agarrava as duas ou três velhas bonecas que possuía e punha-se a alimentá-las, banhá-las, vesti-las. Costurava-lhes roupas com os retalhos de pano de sua mãe. E as enfeitava. Brincos, anéis, colares e broches, maquiagens, esmaltes e batons. Para elas jurara que haveria de ser mãe e que, quando fosse, seria a melhor mãe do mundo e sua filha, a mais linda, a mais paparicada, a mais enfeitada dele.
Agora que crescia e seu corpo começava a despejar sobre ela uma torrente interminável de hormônios, Juliana achava-se ainda mais estranha, menos atraente. E suas colegas todas rodeadas de meninos. Especialmente Carolina. Juliana sempre estivera rodeada de meninos, mas não da mesma forma. Nenhum deles a olhava como olhavam para “Carol”. As coisas não estavam mais tão claras; não mais pareciam tão divertidas as conversas tolas sobre futebol e carros. Tudo mudara, a não ser o desejo de se tornar mãe. Mas, como? Que garoto iria se interessar por uma coisa desengonçada, esquisita como ela? Um aperto diferente invadiu seu coração, algo que ela nunca sentira antes. Era como a tristeza que sempre a acompanhara, porém mais intensa, mais dolorosa e retirava de tudo o brilho.
– Maria João! Maria João!
– JULIANA!
– Ui... Juliana... Você não quer ir lá em casa hoje?
– Pra que, Carolina?
– É que meu pai tá reformando a casa e ele vai precisar de um servente de pedreiro.
Os risos e chacotas há muito se tornaram insuportáveis. Já era hora de deixar Carolina e aquilo tudo para trás. Juliana largou a escola e arrumou um emprego.
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* Baseado em conto homônimo publicado na antologia do 13º Prêmio Escriba de Contos (2013), de Piracicaba - SP
Leia a primeira parte desta história aqui
segunda-feira, 30 de março de 2015
Um Outro Olhar: Nuvem
Nuvem é o terceiro livro de poesia de César Nascimento. Lançado no final de 2012, contém 25 poemas e é recomendado àqueles que gostam de poesias, estão à procura de livros, mas que ainda não encontraram um para se iniciar neste gênero! Quem se deixa levar emocionalmente por fotografias e imagens, vai gostar da capa de Nuvem, projetada criativamente pelo próprio poeta.
Para quem gosta de ouvir leitura de versos, Nascimento disponibilizou no YouTube algumas poesias deste livro recitadas por ele. Estão lá Pequeno Lamento, Cantiga, Nuvem e O Nome da Rosa, uma das mais lindas publicadas nesta sua obra.
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Você pode fazer o download gratuitamente do livro no link:
sexta-feira, 27 de março de 2015
Conturbada
Acordei na tarde de hoje, pensando já ser dezembro. Alguns velhos pensamentos amaçados na mente. Que maltratam o físico. Analisei respostas para as perguntas feitas durante o processo de amadurecimento diário. As cordas vocais não expressam o que a mente tanto procura.
Os sentimentos continuam os mesmos diante de tantas oportunidades que a vida é capaz de trazer. A decepção é presença contínua em relação àqueles sonhos trancados na gaveta. Alimento a alma com aquilo que melhor me faça sorrir. Porém, sinto que as dúvidas ainda podem aparecer.
Tenho certezas coloridas no meio de um universo tão nublado. Essas que podem mudar um pequeno gesto ou escolha. Encontro dentro de um contexto cultural, algo que talvez faça sentido em determinado momento.
O medo cerca, prende. Vivo em uma sociedade que julga as escolhas alheias, com pressão e olhares dos quais nem esperamos. Sentimo-nos sem saber se o que estamos fazendo é realmente certo. Além, do julgamento daqueles que não sabem o que dizem, temos o interno que por vezes causa mais problemas do que o externo.
Queremos isso, mas estamos presos a pensamentos sem sentido, que acabamos deixando de lado, algo que possa nos fazer mudar, crescer e ir tão longe quanto à lua.
Se dezembro já fosse, seria tudo ainda mais assustador. Mas ainda bem que a realidade me mostrou que ainda é março, e que ainda existe tempo. Aliás, no fim das contas, sempre existe tempo para realizar e recomeçar, é preciso apenas deixar, que as cores da vida, entrem nesse universo de desespero e dor. Que os sonhos sejam maiores do que o medo, e que possamos chorar, secar as lágrimas e continuar, sendo aquilo que realmente esperamos ser.
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terça-feira, 24 de março de 2015
Paixão Lusitana: Paixão por escrever
Puxei o teclado para mim para escrever sem destino e lembrei-me, então, de como gostei de aprender a escrever. Agarrava no lápis com a sofreguidão de um primeiro amor e desenhava traços e círculos numa construção de palavras e logo frases que primeiro significavam coisas, depois passaram a contar coisas acontecidas, até que puderam ser elas próprias lugares, ideias, sentires ...
Nem o martírio do aparo e do tinteiro me abrandaram no prazer da escrita. As nódoas azuis na bata matinalmente imaculada pela lixívia, eram as testemunhas do correr feliz do aparo pelo caderno de linhas vigiado pela sr.ª Dona Lucinda.
Um dia passei a escrever sonhos lindos, parecidos com as histórias que entretanto aprendera a ler. E escreveram-se diários sem conta: amizades feitas e desfeitas, amores e desencontros, acontecimentos e tudo o mais que fosse digno de registo fechado à chave. Pelo meio umas contribuições para os jornais da escola e para revistas infantis e juvenis enchiam-me de orgulho e muitas cartas, também, me saíram das mãos: para os primos do Brasil por encomenda da avó, para amigos estrangeiros conhecidos através de outros, emigrantes, postais de férias, de aniversário e, mais tarde, as cartas de amor!
O meu pai ensinou-me, ainda pequena, a escrever à máquina numa Royal, agora objecto de decoração e de memórias lindas. Mais tarde, rendi-me sem grande esforço aos teclados dum Xpectrum, dum Mac e outros que se lhes seguiram, mas sempre com a cumplicidade de umas quantas Bics. Tenho de escrever sobre assuntos profissionais, frequentemente, e faço-o com agrado. Mas este gosto da escrita pela escrita ... ah! esse faz-me encontrar novos sentidos!
E dou a voz do meu sentir a um poema de Assim:
poetas
já viram um poeta escrever?
fascinante!
todo ele é voz
é movimento
o corpo baila em torno da mão
num eixo que ela mesma traça
é o poema, vivo
as palavras que ficam
são a penumbra imagem do momento
e se recria se outro poeta as lê.
já viram um poeta ler?
fascinante!
todo ele é voz
é movimento
o corpo baila em torno dos olhos
num eixo que eles mesmos traçam
é o poema, vivo
as palavras, se abandonadas
são a penumbra imagem dos momentos
quando um poeta escreveu
e outro leu
antónio assim d'oliveira
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antónio assim d'oliveira
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sexta-feira, 20 de março de 2015
CORRESPONDÊNCIAS
De: Alef de 2015
Para: Alef de 2006Caro-Alef-do-passado, como você já leu acima, eu sou o Alef do futuro. Ou seja: você daí a nove anos. Gostaria de pedir encarecidamente pra que você levasse os seus estudos a sério e parasse de reprovar. Sim, eu sei que você vai me inventar a desculpa de que a professora é chata e não gosta de você. Essa desculpa não cola comigo, afinal, sou você. Eu inventei essa desculpa! Não estou pedindo pra você parar com as zoeiras, nem com a piada do não-e-nem-eu, muita gente ainda vai cair nela. Só quero que você não estrague o seu futuro por causa das reprovações constantes. O seu futuro pode ser maravilhoso se você parar de soltar bombas no corredor da escola. Ainda falando nisso, quero te deixar um alerta que pode mudar todo o rumo da sua vida: sabe aquela colega de sala que sempre pede o seu apontador emprestado e você acha ela a mulher mais bonita do mundo mesmo ainda não conhecendo a Chloë Grace Moretz? pois é, essa menina vai rasgar o seu coração em pedacinhos e dá-los pros cachorros da rua comerem. Agora mudando de assunto. Sua avó, mãe do seu pai, que mora em João Pessoa, vai morrer em 2014. Pois é. Mas dias antes da morte dela você vai passar dois meses lá. Ela é uma pessoa maravilhosa. Vai adorar conhecê-la. Você ainda vai escrever muitas coisas sobre ela. Ah, esqueci de te contar: você é metido a escritor!
PS: sobre a garota que pede apontador: apaixone-se cegamente por ela. Vai te render bons poemas.
De: Alef de 2021Para: Alef de 2015
Caro-Alef-do-passado, aqui fala o Alef do futuro. Hoje é um dia muito importante pra você. Cheguei agora da sua formatura. Sim, isso mesmo. Logo você que vivia dizendo que nunca entraria na faculdade. Pois é. A partir de hoje, você é um psicólogo! Parabéns por nunca desistir desse sonho, cara. E obrigado pelo esforço danado que fez pra passar no vestibular. Mas o que me motivou a escrever esta carta, não foi apenas a formatura. Mês passado sua esposa –sim, você casou aos 24 - te deu a extraordinária notícia de que está grávida! Sim, cara! Isso mesmo... vai ser pai! Você não imagina o tamanho da sua alegria. Vai ser uma menina; o que você mais temia, mas no fundo queria que fosse. Vou zelar o seu desejo do passado e nomeá-la Sofia. Pai, Alef. Você é psicólogo e pai! Que orgulho!
PS: caso esteja curioso pra saber quem vai ser sua esposa: lembra da menina do apontador?
PS2: preserve as suas amizades. Sem elas, você não seria feliz.
PS3: você já escreveu e lançou mais livros do que sonhou escrever.
De: Alef de 2038Para: Alef de 2024
Querido eu do passado. Escrevo para vós e trago boas notícias. Sua filha Sofia passou no vestibular pra Medicina! Quem diria hem? Ela está realizando o sonho que você deixou de lado por conta do trabalho. Ela é uma menina linda. Pele branca feito a neve, cabelos loiros e – o mais esperado – seus olhos verdes. Tanta beleza assim só poderia atrair um tanto de marmanjo que vive no pé dela. Mas fique tranqüilo, você a ensinará bem a lidar com esses casos. Afinal, você é um dos melhores psicólogos do país. Queria te dizer também que sua esposa continua belíssima e é uma extraodinária companheira. Um de seus melhores amigos faleceu recentemente. Câncer. Você não está se sentindo bem faz meses, mas no fundo, sente-se feliz por ter conhecido um cara maravilhoso como aquele. Não direi o nome dele. Será melhor assim. Aproveite cada momento com cada um de seus amigos.
PS: não despreze aquela caminhada que você adora fazer. Acredite ou não, você está engordando.
PS2: você conseguiu comprar aquela casa de praia que tanto sonhou.
De: Alef de 2054
Para: Alef de 2037
Grande Alef! Como vão as coisas? Outra vez lhe escrevo numa data importante pra você. Hoje, menino, você está completando 60 anos. Seus irmãos estão todos aqui na sua casa. Infelizmente a alguns anos seus pais morreram. Embora você sempre pensasse que eles seriam eternos. Mas essa é a vida. Pessoas morrem para nascerem outras. E advinha só quem nasceu a poucos anos? Seu neto Alessandro, filho da Sofia. É bonito igual você. Puxou ao avô todinho! Passa o dia na sua casa correndo e bagunçando tudo. Sua filha Sofia casou-se com um rapaz direito e de boa índole. Médico assim como ela. Os dois se amam muito. Lembra quando você vivia dizendo sobre aqueles velhos que não fazem nada além de jogar dominó com os amigos e viajar?! Pagou com a língua! Você será um daqueles velhos. De uma coisa pode ter certeza: você carregou seus amigos até aqui. Parabéns por isso. Agora preciso parar de escrever, parece que Alessandro escondeu as chaves do carro. Ê netinho danado.
PS: sua esposa continua formosa, só mudou a idade.
De: Miguel em 2086
Para: Alef de 2073
Oi, o senhor não conhece eu, mas mim chamo Miguel. Sou filho do Alessandro, seu neto. Quando nasci, senhor já não existia mais. Disseram que está no céu. Espero que é verdade porque o céu é bonito e azul. Eu tem apenas seis anos. Mas já sei ler escrever. Gosto dos livros que o senhor escreveu. Principalmente do livro Bob Marujo. Todos aqui de casa diz que o senhor era o máximo. Queria muito ter conhecido. Pedi pro papai dar pra mim o violão que o senhor deixou. Mas ele disse que eu deveria escrever uma carta pedindo. Bisavô, posso fica com o seu violão?
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domingo, 15 de março de 2015
Hoje Toda & Qualquer Poesia traz um convidado especial, o autor Roque de Ávila Jr, com um texto super original:
A Dieta da Dra. Ronalda
Por Roque de Ávila Jr.
- Não há como dar errado, Dona Otávia. Seguindo esta dieta, seu filho vai emagrecer consideravelmente e sem ingerir qualquer medicamento.
- Muito agradecida Doutora Ronalda. Mas a senhora me desculpe, eu não estou acostumada com letra de médico. Pode me explicar melhor em que consiste exatamente essa dieta?
A nutricionista sorriu com amabilidade.
- Claro, Dona Otávia, preste atenção: teu filho precisa de proteínas. Carne é muito rica em proteínas. Então sugiro que dê a ele todos os dias uma pequena porção de carne, cerca de 112g já basta.
- Ele não é fã de carne...
- Faça assim então: mande moer a carne, tempere e prense como se fosse um bifinho. Com pouco óleo, faça a carne na chapa. Ele vai adorar, porque já estará temperada! Pode servir com um pouco de alface picadinha, para ficar colorido. É saudável e é muito gostoso.
A mãe fez novamente aquela expressão de que o filho continuaria a não gostar. Então, antes que a mãe argumentasse um novo impedimento do garoto às suas recomendações, a médica continuou a orientar:
- Acrescente também queijo. É rico em cálcio e previne diversas patologias ósseas.
- Ele não gosta muito de queijo...
- Ora, coloque então um molhinho especial e a senhora vai ver como ele come. Ainda mais se acrescentar cebolas picadinhas. Cebola é algo extremamente saudável, contêm antioxidantes e é muito boa para o sistema imunológico!
- Ih, Doutora Ronalda, então piorou! Ele detesta cebola!
A médica já estava achando o garoto enjoadinho demais. Todavia, tentou ser tolerante:
- Misture um pouquinho de picles. É super baixo em calorias e dá um gostinho que disfarça a cebola. Aliás, faça também o seguinte: ponha tudo isso num pãozinho e ele vai adorar.
- Mas tem que ser pão? Ele não suporta pão!
- Veja, - disse a doutora, já impaciente – muita gente se esquece que o pão, em quantidades recomendadas, é um alimento rico em fibras e vitaminas. É bom comer um pouco. Existem alguns bem legais... experimente o que tem gergelim, que é algo rico em minerais e é muito gostoso.
Doutora Ronalda fechou decididamente sua caneta e retirou os óculos:
- Então estamos combinadas?
- Ó, doutora, muito obrigada. Mas só tenho uma dúvida: a cada seis meses meu filho me pede para comer sanduiche no shopping. Há algum problema nisso, doutora?
A médica então diz a Dona Otávia, mirando-a com um sério olhar de censura:
- É óbvio que há problema! A senhora é louca de dar esse tipo de alimento ao seu próprio filho?!
A médica então deu as costas e deixou a sala resmungando sozinha:
- Quanta ignorância, meu Deus! Quanta ignorância!
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Roque de Ávila Jr é professor de artes, artista plástico e escritor, autor do livro Peles (Chiado, 2014).
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